Projeto Rondom

Educar e instruir


O maior movimento voluntário do país

Mundo Rondon em evidência: Um anjo fardado

 

Fábio Bentes Freire

 

Militares e universitários coexistem com diferenças que os unem mais do que os separam. O militar nasce e cresce civil, a farda não apaga isso. Tudo começa igual, o ponto de partida é o mesmo: a Escola. Futuros advogados, sargentos, comerciantes, diretores, engenheiros, médicos, capitães, pilotos brincam juntos no recreio, chutam a mesma bola, sentam-se lado a lado em carteiras iguais, escutam com atenção, e até admiração, o mesmo professor ou a mesma professora. O militar só torna-se militar e o universitário só torna-se universitário porque são preparados para isso. Apesar de trilharem caminhos profissionais diferentes, partem da mesma nascente. Somos mais parecidos do que imaginamos. O belíssimo Projeto Rondon deixa isso bem claro, unindo a farda e o icônico colete amarelo, levando conhecimento até onde ele precisa chegar. Cada um com o seu papel, pondo em prática sentimentos elevados, de solidariedade, de entrega, de cidadania, de alegria sincera e de sorrisos fáceis, criando, por um momento, uma espécie de Céu na Terra, com direito à gente de boa intenção, de nobres ações, e de um anjo zelando por todos. Um anjo que, por sinal, pode ter muito trabalho, caso um de seus assegurados seja eu.

Dizem as más línguas que, se houver um único buraco no mundo, eu caio nele. Não é bem assim, mas tenho a fama, às vezes, justificada. Em minha primeira participação no Projeto Rondon, em julho de 2014, não caí em nenhum buraco, mas dei um trabalhão para o anjo, o infalível Muniz, militar da marinha que nos acompanhava. Foi assim. O dia havia começado igual aos outros da Operação Guararapes, em Pernambuco. Levantei com a mesma disposição e entusiasmo de sempre, tomei café da manhã e parti ansioso para mais uma maratona de oficinas. A minúscula Lagoa do Ouro, no interior de Pernambuco, recebia o Projeto Rondon e eu debutava junto com a minha colega de departamento, a professora Gabriela, e nossos alunos, oito no total. Era quinta-feira, primeira semana da Operação. Dividíamos as atividades com a UNIVALI de Santa Catarina, equipe coordenada pela professora Edinéia. O Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) era a casa que nos abrigava, vinte universitários, quatro professores (só eu de homem) e dezesseis alunos. A casa era um lar, porque tínhamos um anjo, de nome Muniz. Insisto, ele tinha nome.

O Projeto Rondon é empolgante. A satisfação com cada etapa cumprida é indescritível. Consigo senti-la de novo, enquanto escrevo essas linhas, mas sou incapaz de traduzi-la em palavras. Não dá. Mas naquela quinta-feira, no período da tarde, de chuva fina, abençoada, em terra que sofria com a seca, meu pique foi embora. Logo após o almoço, comecei a sentir um cansaço fora do normal, participei das oficinas sem dizer nada, mas não me sentia bem. Lembro-me daquela tarde como a mais longa de todas, porque a hora não passava. Fui dormir exausto, mas, talvez, estaria melhor na manhã seguinte, pensei. Essa foi a minha última lembrança da noite, antes de acordar, ensanguentado, no chão do quarto onde dormíamos, separado das mulheres. Só quem passou por essa experiência sabe dizer quão estranha ela é. Os sentidos não voltam todos de uma vez. Primeiramente, ouvi vozes. Só depois eu consegui ver que havia pessoas ao meu redor. Nunca me lembrei de nada que aconteceu. O episódio continuou sendo, até hoje, uma ausência completa na minha linha do tempo. Poucas vezes me senti tão perdido e fora de órbita em minha vida.

Foi aí que o anjo Muniz entrou em cena. Aconteceu o seguinte: eu acordei de madrugada para ir ao banheiro, desmaiei logo na entrada e bati forte com a cabeça em uma quina. As marcas de sangue falavam por si. Depois de um certo tempo, não sei quanto, voltei para o quarto e apaguei de novo, caindo ao lado de um aluno, que só não enfartou porque era muito jovem. Quando retomei plena consciência, o Muniz já vestia seu uniforme da Marinha, visão que me acompanhará até o túmulo. As Forças Armadas acertaram na escolha desse militar para que ficasse à nossa disposição. Por ser diabético, a tal da ausência me deixou bem desarticulado. Coube, então, ao anjo Muniz, providenciar a ambulância que me levou para Garanhuns e a posterior assistência médica. Não bastasse, ele acompanhou cada um dos sete pontos que eu levei na cabeça e, graças à sua insistência, foi feito um raio-X do crânio, sob protestos. O Muniz não deu trégua, falando pouco, mas falando firme e certo. Graças a ele, tive tudo o que eu precisava naquele momento. Mais do que isso, tive um irmão ao meu lado, tão próximo quanto possível.

Eu vestia meu coletinho amarelo do Projeto Rondon e o Muniz usava um uniforme da Marinha, que não era branco. Militares e universitários não são tão diferentes assim. Lá se vão quase cinco anos desse episódio, mas é impossível para mim conter a emoção com a lembrança, tamanha foi a confiança de que tudo daria certo, quando recobrei a consciência, ainda deitado no chão. O peso da farda me passou uma tranquilidade tremenda, quase imediata. Mais que um anjo, um arcanjo, como tinha que ser.

Logo que voltei para casa, após o término da Operação Guararapes, fiz uma bateria de exames e descobri que, muito provavelmente, o que havia causado o desmaio foi uma desidratação, agravada pela diabetes. Poderia ter sido algo bem sério, mas felizmente não foi, pois o bravo marinheiro Muniz zelava por nós, naquela noite escura e distante, em Lagoa do Ouro, agreste de Pernambuco.

O que restou disso tudo pode ser resumido em uma palavra: gratidão. Gratidão pelo militar que deveria nos acompanhar, e foi mais que um acompanhante: foi amigo, foi irmão, foi anjo da guarda. Uma palavra é pouco, preciso de mais uma para fechar com chave de ouro essas memórias tão boas. Vou usar aquela que deve ser usada entre homens de bem, profissionais sérios que trabalham dentro da ética, uma palavra que nunca pode ficar de lado, que soa bem, e eu gosto: RESPEITO!

 

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